Sempre tive uma relação difícil com a minha mãe, e quando ouvia essa frase costumava revirar os olhos e dizer: “não generalize, não é sempre assim.”
E por muitos anos, eu ouvia de volta: “Quando você for mãe, você vai entender.”
Até que eu me tornei mãe.
E, pasmem: eu entendia ainda menos.
O que me fez compreendê-la, de verdade, não foi a maternidade, mas a maturidade.
Ao longo da minha jornada profissional, conheci muitas mães, e percebi que há uma certa verdade nessa frase porque todas as mães amam.
Mas então, por que tantos filhos não se sentem amados?
Foi na busca por amadurecimento que percebi que toda mãe ama, mas ama conforme a sua capacidade de amar, que as vezes é nula. E todo filho percebe esse amor conforme a sua capacidade de perceber, que por vezes é baixa.
Isso porque essa capacidade — de amar e de reconhecer o amor — está diretamente ligada ao nível de maturidade emocional de cada indivíduo. Ao quanto o seu mundo afetivo foi nutrido, preenchido e curado ao longo da vida.
Existe uma teoria sobre a jornada do amadurecimento que explica isso com profundidade.
Mas aqui, eu vou simplificar para você:
Essa teoria diz que uma pessoa imatura emocionalmente é aquela que busca, o tempo todo, por aprovação, por reconhecimento. É aquela pessoa que interpreta todos os fatos do mundo como algo sobre si.
(Narcisismo? Pode até ser, mas, na maioria das vezes, é só um vazio emocional tentando ser preenchido.)
Ela calcula cada gesto, cada palavra, como se estivesse juntando provas para entender se é amada ou não.
Amar o outro, nessa fase, é muito difícil — porque tudo gira em torno de si mesmo.
Já a pessoa amadurecida tem seu mundo afetivo preenchido, sente-se inteira, e, por isso, consegue ofertar amor sem gerar dívidas a quem o recebe.
Comparar o amor de mãe ao amor de Cristo é possível porque as mães estão mais próximas de amar dessa maneira. São elas que estão mais próximas de oferecer um amor desinteressado dos seus próprios interesses, e você se torna capaz disso, na medida que amadurece e ganha capacidade de curar o seu mundo afetivo.
Sua mãe te ama, mas ama na medida que ela consegue amar.
Talvez ela tenha recebido muito amor e, por isso, conseguiu te entregar de forma natural e espontânea.
Ou talvez, apesar dela não ter tido uma vida fácil, ela integrou em si, tudo aquilo que lhe aconteceu de maneira positiva — mas talvez não.
Talvez ela tenha crescido carente, ferida e solitária. E talvez nunca tenha conseguido modificar isso.
E como oferecer aquilo que nunca se recebeu?
Se você não foi amado da forma como julga adequada, talvez o seu mundo afetivo esteja deficitário também — e, por isso, você terá dificuldade em amar o seu filho de forma plena.
É somente amadurecendo que você será capaz de dar ao seu filho um amor semelhante ao que Deus oferece a você.
É por isso que a maternidade também te deixa mais próximo desse amor, porque, de certa forma, ela te obriga a amadurecer.
É também amadurecendo que você conseguirá olhar para trás com outros olhos. Com gratidão e compaixão pela sua mãe.
E, finalmente, perceber que existe amor — ainda que imperfeito, ainda que limitado.
Porque, no fim das contas:
ninguém dá o que não tem —
mas todos podemos buscar aquilo que nos falta.





